Brasil em 2026: a oportunidade de mercado para empresas chinesas
Esta página consolida comércio, investimento, movimentos setoriais, mudanças de política e dores de execução de empresas chinesas no Brasil em 2024–2026, cada número com a fonte original. A conclusão: o Brasil é hoje o primeiro destino do investimento chinês no exterior, automotivo, energia e máquinas migram de exportar para localizar, e a complexidade regulatória exige estudar antes de instalar.
Seis setores em que o capital chinês está entrando
Veículos elétricos e autopeças
BYD, GWM, Chery e Geely já produzem ou coproduzem no Brasil; a partir de julho de 2026 o imposto de importação de elétricos sobe para 35% e as cotas CKD acabam no fim do ano, abrindo a janela de localização para fornecedores de peças. Marcas chinesas já têm mais de 10% das vendas.
Solar e armazenamento
Imposto de importação de 25% para módulos acima da cota empurra montagem local e projetos de baterias (BESS); a CHINT constrói sua primeira fábrica sul-americana em Itumbiara (GO) e a BYD anunciou até R$ 500 mi em baterias estacionárias.
Máquinas agrícolas e de construção
A XCMG produz em Minas Gerais desde 2014 e mira 55% de conteúdo local em 2026; a Sany inicia caminhões elétricos no interior de São Paulo em 2026; a Zoomlion entrou com máquinas agrícolas em 2025. O Show Rural, em Cascavel, recebe cerca de 400 mil visitantes por ano.
Mineração e petróleo
O investimento chinês em mineração chegou a US$ 1,76 bi em 2025, o maior desde 2011, concentrado em fusões e aquisições de níquel e cobre; CNOOC e Sinopec venceram o bloco Ametista em outubro de 2025 e as estatais chinesas passaram de 2% para 6% da produção brasileira de petróleo.
E-commerce e logística
A Temu chegou a 39 milhões de usuários mensais seis meses após o lançamento; o TikTok Shop chegou em maio de 2025 com GMV de até R$ 39 bi previsto para 2028; a Cainiao opera 9 centros de distribuição em 7 estados e assinou memorando com os Correios.
Franquias de alimentação e delivery
A Mixue prometeu R$ 3,2 bi e até 25 mil empregos até 2030 e abriu a primeira loja em São Paulo em abril de 2026; a Keeta, da Meituan, adiou a estreia no Rio e demitiu, um caso de alerta sobre execução; a 99, da Didi, elevou o investimento no 99Food para R$ 2 bi.
1 Comércio bilateral: qual foi o tamanho em 2025?
O comércio Brasil–China chegou a US$ 171 bi em 2025, alta de 8,2% e recorde; a China foi o maior parceiro comercial do Brasil pelo 16º ano consecutivo. O Brasil exportou US$ 100 bi para a China (+6%) e importou US$ 70,9 bi (+11,5%), superávit brasileiro de US$ 29,1 bi. A China leva 28,7% das exportações brasileiras e fornece 25,3% das importações.
A pauta é de commodities: soja US$ 34,5 bi (34,5% das exportações para a China), petróleo bruto US$ 20,1 bi, minério de ferro US$ 19,5 bi; a China compra cerca de 73% da soja, cerca de 70% do minério e 53,2% da carne bovina exportados pelo Brasil. O Brasil é o maior fornecedor da China em soja, carne bovina, celulose, algodão, açúcar e frango.
Visto do outro lado, US$ 70,9 bi de importações da China significam que o Brasil absorve todo ano um grande volume de máquinas, eletrônicos, veículos e peças chinesas. Essa é a base de mercado sobre a qual empresas chinesas passam de exportar para o Brasil a operar no Brasil. Nota: a alfândega chinesa reporta US$ 185 bi; este site usa os números do MDIC.
2 Investimento direto chinês: para onde foi o dinheiro?
Segundo o relatório publicado pelo CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China) em 7 de maio de 2026, o investimento direto chinês no Brasil chegou a US$ 6,1 bi em 2025, alta de 45% e o maior valor em sete anos; o Brasil foi o 1º destino mundial do investimento chinês no exterior, com 10,9% do total. Foram anunciados 59 projetos, 7 deles (US$ 2,76 bi) não se concretizaram, restando cerca de 52 projetos confirmados em 20 estados.
Greenfield respondeu por 60,9%; fusões e aquisições triplicaram para US$ 1,9 bi (31,7%). Por setor: eletricidade US$ 1,79 bi (29,5%), mineração US$ 1,76 bi (maior desde 2011, níquel e cobre), automotivo US$ 965 mi (+66%). 31 projetos “verdes” representaram 60% do total.
Por região: Sudeste 32,5%, Norte 26,7%, Centro-Oeste 14%, Sul 14%, Nordeste 12,8%; por estado, São Paulo 17 projetos, Minas Gerais 10, Pará 10, Amapá 9. Acumulado 2007–2025: US$ 85,5 bi em 355 projetos.
Para comparar, o investimento de 2024 foi de US$ 4,18 bi (+113%) em 39 projetos, recorde à época, com o Brasil como 3º destino mundial e 1º entre emergentes. Os R$ 27 bi anunciados no fórum empresarial de Pequim em maio de 2025 incluíram GWM R$ 6 bi, Meituan/Keeta R$ 5,6 bi, Envision até R$ 5 bi, Mixue R$ 3,2 bi, CGN R$ 3 bi e Baiyin Nonferrous R$ 2,4 bi.
3 A onda automotiva: por que 2026 é o divisor de águas da localização?
A fábrica da BYD em Camaçari (BA) começou a produzir em outubro de 2025 após R$ 5,5 bi de investimento, com capacidade inicial de 150 mil veículos por ano e meta de 300 mil até 2030; nove meses após a abertura já somava 100 mil veículos e 5.500 empregos diretos, com estamparia, solda e pintura previstas para o 2º semestre de 2026. Em abril de 2026 a BYD foi a marca nº 1 do varejo automotivo brasileiro.
A fábrica da GWM em Iracemápolis (SP) produz desde 15 de agosto de 2025, com R$ 10 bi previstos até 2032, capacidade de 50 mil por ano, mais de 60% de peças locais em 2026 e uma segunda fábrica em estudo em Rio Grande (RS). A CAOA Chery adiciona R$ 5 bi à fábrica de Anápolis (GO), R$ 8 bi até 2028, para produzir Chery e Changan a cerca de 200 mil por ano.
A Geely assumiu 26,4% da Renault do Brasil em novembro de 2025 com R$ 3,8 bi; o EX5 EM-i e o EX2 serão produzidos a partir do 2º semestre de 2026 no Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR); a primeira concessionária Geely do Brasil abriu na mesma cidade em agosto de 2025, chegando a 23 lojas em 18 cidades até o fim do ano. Omoda & Jaecoo assumiram a antiga fábrica da JLR em Itatiaia (RJ) com meta de 50 mil vendas em 2026; a Leapmotor (Stellantis) inicia produção em Goiana (PE) em 2026; a GAC vende desde 2025 e planeja fábrica até o fim de 2026. Lepas, Dongfeng e BAIC chegam em 2026.
A política é o divisor: a partir de julho de 2026 o imposto de importação de BEV, PHEV e híbridos sobe para 35%; marcas com montagem local mantêm cotas CKD e alíquota de 14% até o fim de 2026, e os 35% plenos valem a partir de janeiro de 2027. As montadoras precisam localizar e formar parques de fornecedores ao redor das fábricas; a Linglong já reservou área para fornecedores em Ponta Grossa.
4 Energia e minerais: depois das estatais gigantes, onde está a oportunidade para fornecedores?
A State Grid venceu o lote 1 do leilão de transmissão ANEEL 2/2024 (R$ 18,1 bi, 1.500 km de UHVDC entre Maranhão, Tocantins e Goiás) e declarou intenção de investir mais de R$ 200 bi no Brasil. A CTG Brasil adicionou 1 GW em 2025 (solar Arinos, em Minas Gerais, e eólica Serra da Palmeira, na Paraíba). A CGN colocou 44 MW solares em operação em Lagoa do Barro (PI) em 2026, ligou quatro usinas no Ceará em junho de 2026 e prometeu R$ 3 bi em renováveis no Piauí.
No lado dos equipamentos, o imposto de importação de 25% para módulos solares acima da cota empurra montagem local e projetos de armazenamento. A CHINT fabrica medidores em Manaus e constrói sua primeira fábrica sul-americana em Itumbiara (GO); a Trina Tracker está em Salvador; a BYD anunciou até R$ 500 mi em baterias estacionárias. A eletricidade recebeu US$ 1,79 bi de investimento chinês em 2025, 29,5% do total.
Petróleo e minerais: CNOOC (70%) e Sinopec (30%) venceram o bloco Ametista em outubro de 2025, e as estatais chinesas passaram de 2% da produção brasileira de petróleo em 2021 para 6% em 2025. O investimento em mineração de US$ 1,76 bi foi o maior desde 2011, concentrado em fusões e aquisições de níquel e cobre; a Baiyin Nonferrous anunciou R$ 2,4 bi para cobre em Alagoas.
5 Máquinas e agronegócio: como as feiras abrem o interior agrícola?
A XCMG produz em Pouso Alegre (MG) desde 2014, investe R$ 270 mi em caminhões elétricos, eleva o conteúdo local de 50% para 55% em 2026 e está entrando em tratores. A Sany inicia a produção de caminhões elétricos em Jacareí (SP) em 2026, e o Banco Sany Brasil foi licenciado pelo Banco Central em maio de 2025. A Zoomlion vende máquinas agrícolas desde 2025 e negocia montagem CKD.
A COFCO amplia o terminal STS11 em Santos de 4,5 para 14 milhões de toneladas por ano e investiu R$ 1,2 bi em 23 locomotivas e 979 vagões para 2026. O Brasil é o maior fornecedor da China em soja, carne bovina, celulose, algodão, açúcar e frango; o interior agrícola é ao mesmo tempo comprador e mercado para máquinas, irrigação e armazenagem.
As feiras são a porta de entrada mais eficaz: o Show Rural Coopavel, em Cascavel (PR), de 9 a 13 de fevereiro de 2026, reúne mais de 600 expositores e cerca de 400 mil visitantes, com R$ 7,05 bi em negócios em 2025. Empresas chinesas costumam testar o mercado com máquinas importadas e depois localizar via rede de revendas e montagem CKD.
6 Consumo e digital: as plataformas chegaram, como as marcas vendem?
A Shein tem cerca de 300 fábricas parceiras no Brasil, 85% do vestuário produzido localmente e 30 mil sellers, embora a produção local avance devagar. A Temu foi lançada em maio de 2024 e chegou a 39 milhões de usuários ativos mensais em seis meses; o TikTok Shop chegou em 8 de maio de 2025 com GMV de até R$ 39 bi previsto para 2028. AliExpress e Cainiao colocam o Brasil entre os três mercados prioritários de 2026, assinaram memorando com os Correios em maio de 2026 e operam 9 centros de distribuição em 7 estados.
Os serviços locais divergem: a Keeta, da Meituan, prometeu US$ 1 bi (R$ 5,6 bi) em cinco anos e fez piloto em Santos em outubro de 2025, mas adiou a estreia no Rio e demitiu em massa em março de 2026, um caso de alerta sobre execução; a 99, da Didi, elevou o investimento no 99Food para R$ 2 bi. A Mixue prometeu R$ 3,2 bi e até 25 mil empregos até 2030 e abriu a primeira loja em São Paulo em abril de 2026. A Xiaomi abriu a 55ª loja própria em 2026; a Huawei fez uma pop-up em São Paulo em agosto de 2025.
On-line ou off-line, o consumidor brasileiro fecha no WhatsApp: cerca de 147 milhões de usuários, 82% já interagiram com marcas e 60% já compraram pelo WhatsApp (Opinion Box, 2025). Um site .com.br em português e um canal oficial da API do WhatsApp Business são a configuração digital mínima de uma marca chinesa no Brasil.
7 Calendário de políticas: quais mudanças entre 2026 e 2033 afetam o seu cronograma?
Reforma tributária (EC 132/2023): 2026 é ano-teste, com CBS de 0,9% e IBS de 0,1% destacados na nota enquanto os tributos antigos permanecem; em 2027 a CBS vale integralmente e PIS/COFINS são extintos; de 2029 a 2032 ICMS e ISS migram para o IBS; em 2033 o novo regime funciona por completo. Qualquer subsidiária aberta em 2026 precisa de ERP e nota fiscal eletrônica (NF-e) desenhados para os tributos antigos e novos em paralelo.
Política industrial: o imposto de importação de elétricos chega a 35% a partir de julho de 2026 e vale integralmente a partir de janeiro de 2027; módulos solares pagam 25% acima da cota. O programa Mover oferece R$ 19,3 bi em créditos tributários até 2028, e o Move Brasil, até R$ 30 bi em crédito para renovação de frota.
Relações bilaterais: a visita de Estado do presidente Xi Jinping em 20 de novembro de 2024 produziu 37 atos assinados e elevou a parceria a “Comunidade de Futuro Compartilhado”; a cúpula do BRICS no Rio, em 6 e 7 de julho de 2025, adotou a Estratégia de Parceria Econômica 2030 e diretrizes de governança de IA. Portadores de passaporte comum chinês podem entrar no Brasil sem visto por 30 dias (turismo, negócios, conferências) de 11 de maio a 31 de dezembro de 2026, o que favorece viagens de prospecção; não há voo direto, e a Air China opera Pequim–Madri–São Paulo três vezes por semana.
Conformidade de dados: a Resolução ANPD 19/2024 regula transferências internacionais de dados; a China não tem decisão de adequação, então transferir dados pessoais para a matriz chinesa exige cláusulas-padrão contratuais.
8 Dores de execução: onde as empresas chinesas mais perdem terreno no Brasil?
Complexidade: o Brasil é o 3º colocado no Global Business Complexity Index 2026, do TMF Group; um comentário da Caixin resumiu: “abrir é a parte fácil, sobreviver à burocracia é o teste”. O “Custo Brasil” é estimado em R$ 1,7 trilhão por ano, cerca de 19,5% do PIB.
Tempo: as juntas comerciais processam pedidos em cerca de 21 horas em média, mas uma empresa costuma levar de 30 a 45 dias para operar. O sócio estrangeiro precisa de CPF/CNPJ, procurador residente e registro do investimento no Banco Central (SCE-IED) em 30 dias. A certificação de produtos leva de 60 a 120 dias no INMETRO e de 90 a 180 dias na ANATEL, itens fixos a programar antes de qualquer embarque.
Trabalho e cultura: 163 trabalhadores chineses foram resgatados no canteiro da BYD em Camaçari em dezembro de 2024, e a BYD e suas empreiteiras firmaram acordo de R$ 40 mi em dezembro de 2025. O adiamento da Keeta no Rio e as demissões mostram que capital não é execução. Analistas da S&P apontam a “localização eficaz” como o fator de sucesso das empresas chinesas no Brasil.